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A máquina de morar

O ducumentário Koolhas Houselife se propõe a acompanhar uma semana de limpezas na Maison Bordeaux. Ele se inicia com uma visita turística à casa, projetada em 1998, de arquitetura icônica, uma obra-prima da arquitetura moderna, verdadeira obra de arte, onde os turistas sequer podem entrar de sapatos.
Logo após, o documentário mostra Guadalupe Acedo e o seu aspirador sob a plataforma da casa, o que dá inicio a pequenos episódios de manutenção e limpezas na casa de Koolhaas filtrados pela experiência diária da empregada doméstica.
Acompanhar  o funcionamento da casa me remeteu à expressão "máquina de morar" muito utilizada no movimento moderno. O site ArchDaily coloca ainda que Koolhaas e sua firma OMA redefiniram esse termo na Maison Bordeaux. A casa foi definida a partir do conceito de conceder mobilidade total ao seu proprietário cadeirante, assim a casa se move para ele e não o contrário.
Ao acompanhar o dia-a-dia de Guadalupe, somos testemunhas de sua admiração por está máquina especializada e as enormes dificuldades que tem em realizar seu trabalho. Podemos observar, numa visão mais geral, que a casa não se mostra prática, pela dificuldade que a empregada doméstica tem em se locomover com seus equipamentos de limpeza através das escadas em espiral, os vazamentos em dias de chuva e as dificuldades que existem em dar manutenção nas grandes vidraças.
A obra é tida como um clássico da arquitetura, mas o design imponente da casa contribui para que a empregada veja a arquitetura como uma realidade inalcançável para sua posição. Essa exclusão é notável na fala de Guadalupe quando diz que mesmo se o arquiteto a explicasse como a casa se sustenta, ela não saberia repassar a explicação e completa dizendo "Não sou desse mundo". Ela pode pensar assim, pois a arquitetura, em seu meio, utiliza-se de muitos termos técnicos que não fazem parte da linguagem de muitos, mas não seria complicado explicar a ela de maneira simplificada como a casa se mantém de pé.
Ao que parece, o documentário critica a distância que existe entre o projeto e a realidade de Guadalupe, que tem sua rotina totalmente voltada para a casa. A escada não poderia ser, além de moderna e conceitual, segura para quem irá limpa-lá? Não se deveria projetar levando em conta todas as atividades cotidianas que acontecerão no ambiente, mesmo as que não serão feitas pelos proprietários?
Ao projetar um ambiente deve-se associar o produto final às necessidades cotidianas que ele deverá atender. Pode-se sim executar uma obra-prima, mas, se esta está ligada a outros tipos de vivência, não deveria se limitar a ser apenas uma obra de arte, mas estar adaptada à suas funções como um todo.



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